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segunda-feira, 6 de março de 2017

Do poema que fiz

Posso lhe dar razões
Por que te quero
Posso até arriscar a compor
Centenas de canções de amor,
Para que fique, se abrigue.
Mas o que te move a ficar
Quando o mundo
Também te oferece
Tudo que eu posso lhe dar?

06/03/2017

domingo, 5 de março de 2017

O limitar do corpo

Não caibo no corpo
Enquanto estou sendo
E quando penso existir,
Muito há para se descobrir
Sobre o sujeito eu, que sou sem perceber.

Não caibo no corpo
Ao ser possuído pelo medo
Que transborda para presa de mim mesmo,
das faltas e sintomas
Que preenche o corpo limite.

Não caibo no corpo
Quando o sujeito que escreve
Está a ser para si mesmo.

Não caibo no corpo
Na busca de encontrar
E reconhecer o sujeito
Que se é.

O sujeito só cabe em corpo,
No entrelaçar da sua vida
Com o outro, que o confirma no real
Junto ao outro,
Não pelo outro.

17/12/2016

A cegueira do sujeito

Você precisa crescer
Não dá mais para manter-se
Nessa mesmice, seja importante.

Você precisa ser adulto,
Não dá mais para continuar agindo
Como criança.
- Mas eu nunca pude ser criança.
- Você sequestrou à infância de mim.
Agora me culpa por ser incapaz de crescer?
Seja responsável, assuma os teus atos.
- Mas quando você será capaz de
se responsabilizar e deixar de me
culpar por ser quem sou,
por mais que ainda seja infantil?
05/03/2017

Para sempre jovem

Olhando no espelho
Observo alguém inexperiente,
Que vive ainda uma puerilidade
De uma extensão de encher os
Olhos de lágrimas de uma emoção
Inominável.

Ao olhar seu reflexo no espelho
Busca referências de um outro
Que não a si mesmo,
Outro que o confirme no real,
Por não enxergar a si mesmo
No retrato refletido no espelho.

Em seus devaneios ainda
Mantém-se jovem, pueril em
Essência, mas de uma pulsão
De morte que persiste ficar
No lugar de nem lá nem cá,
À observar o desequilíbrio
Que o forçará na escolha
De qual lado cair.

05/03/2017

As profundezas

Seus lábios ao tocar
Os meus fazem borbulhar
Um sentir que inunda e
Destrói as barreiras que
Eu construí em longos anos de caminhar.

Suas mãos firmes e delicadas,
Tocam meu corpo com cuidado,
Com desejo e desnuda
Minha fortaleza.

O teu olhar profundo
Fita o meu e diz tanto,
Sem mencionar uma palavra
Sequer.

A tua pele ao encostar
Com a minha me faz transbordar
Em mim mesmo,
Com você eu posso me sentir
E me sentindo,
Posso sentir o que
Somos, e que insiste em
Não se nomear, ainda
Resiste em se libertar.

05/03/2017

Do poema que não deixei você ler

Do morrer e nascer de mim
Desperto à realidade
Num buscar sem fim
De desencontros e encontros
E quando permite a vida,
Reencontros com o outro,
Em mim.

Andar sob à pele
É uma perdição, em que se perde
De si, estando em si mesmo,
À morte toma corpo em meu corpo,
Enquanto esqueço vou me envenenando,
Até o súbito estalo da morte,
Enquanto encontro a palavra por si
Mesma que se escreve em devaneios
À luz do recomeço.

Dois pra lá, dois pra cá
Respingos de um sonhar
Que este sujeito vem sonhar só,
Num corpo outro passado,
À deriva de alma,
De corpo novo a se tornar.

É enlouquecer inesgotável,
Sujeito que sente e ao sentir
Morre no mundo, e goza um gozar
Solitário com si mesmo, e alucina
Um gozar junto ao outro,
Que ao nascer no mundo,
Morre de si.

20/12/2016

O amar expande

O amar se aprende
Com o olhar do outro,
Através do olhar desde outro,
Que faz com que sinta-me
Desejado, querido e cuidado.

Amar se aprende
No contato com o outro,
Num tocar de pele,
Em que se mistura os desabores,
Amores.

Amar se aprende
Aprendendo que o outro
Também é gente como a gente,
Cheio de desejo de ser amado,
Correspondido.

Amar se aprende
E às vezes é preciso se iludir,
Alucinar um amor,
Para não deixar se perder
Até o próximo amor.

Amar se aprende
Na extensão do outro em nós,
E de nós no outro.

Amar se aprende
Saboreando o que seja o
Suposto amar,
Amando.

05/03/2017

sábado, 4 de março de 2017

O ponto de ônibus

Enrolada em coberto curto
Desbotado e um vestido azul
Marinho surrado pelo tempo e
Descuido, sujo das andanças
Sem rumo.

A vejo com olhar triste,
De um brilho vazio e desesperador,
De quem perdeu algo ou alguém,
Mas que já não pode chorar para
Aliviar o seu sofrer que encobre
Sua pele castigada pelos tempos
Difíceis.

Ela dorme ou tenta adormecer,
Talvez para se aliviar do cansaço,
Em que aposto não ser físico,
Mas psicológico, por sentir-se
Abandonada à mercê do que possuía,
Ou imaginava possuir,
Ela se esparrama num espaço estrito
Para acomodar um corpo suspenso
De si mesmo, e agora
Descansa e tenta se proteger do
Vento gelado que a mantém
Viva, sedenta de carinho, aconchego e amor.

04/03/2017

sexta-feira, 3 de março de 2017

Corpo falante

Transbordando em mim todo desejo
Que leva meu corpo junto ao teu,
Deixando-me trêmulo e faltante de mim,
Por desejar ser teu por inteiro, e já não
Posso ser mais meu por agora ser teu,
Do fio do cabelo ao dedão do pé.

Em gesto pueril acendo uma fogueira
De mais belo de ti e queimo-me dos pés
A cabeça na ilusão de sentir sua essência
Marcada em mim, numa gravura pitoresca
De um surrealismo disforme, de tu em mim, de nós.

Mas é tamanha ilusão que me queimo todo, sem sentir nada além do que imaginei de ti, sem poder sentir a tua pele
Queimando a minha de um gozo sem fim,
De um amor ardente e delicado.

Nada passou da imaginação em
Que repetia em telas brancas, tentando
Gravar o que tinha como suposto saber de
Ti em mim, que agora são brasas e cicatrizar que jamais serão desfeitas,
Por ser de uma profundeza humana,
Gentil de mim mesmo.

04/03/2017

A repetição

Partilho ao corpo
Sedento por mais do mesmo,
Faminto por um alimento faltante,
O mesmo rosto moldurado,
Os mesmos gestos e fisionomia,
Do que faz com que tudo
Ainda se faça e constitua-se do mesmo,
A repetição de mim,
Dos supostos amores, paixões,
Ilusões que esse corpo
Insiste em repetir,
Pintar a si mesmo.

03/03/2017